Lectio: Eu, porém, vos digo…
08.06.2010Tomemos o Evangelho segundo São Lucas, Lc 6,27-38. Leia atentamente pelo menos quatro vezes os versículos propostos, em voz alta, ou em meia voz, procurando responder à pergunta: O que o texto diz? Em seguida releia, silenciosamente, ouvindo de Deus o que o texto lhe diz pessoalmente. Esta é a meditação. Diante de tudo o que lhe foi revelado, faça sua oração, seja de louvor, súplica ou intercessão. E, por fim, continue o momento de oração, deixando-se amar pelo Senhor da vida, escutando no coração aquilo que ele desejar.
Para mim, esse é um dos trechos mais desconcertantes, embaraçosos, difíceis e desafiadores dos evangelhos.
As orientações de Jesus são claras: “Amai”, “Fazei o bem”, “Abençoai”, “Orai”, “Emprestai”, “Perdoai”, “Dai”. E ainda: “Sede misericordiosos”, “Não julgueis”, “Não condeneis”.
E com quem praticar também: “Os vossos inimigos”, “aos que vos odeiam”, “os que vos amaldiçoam”, “os que vos difamam”, “os que te ferem na face”, “os que te tiram a capa”, “os que te tomam o que é teu”, “os que te pedem”.
Amar o próximo como a si mesmo quando o próximo é amigo, é até fácil de entender e aceitar. Agora amar os inimigos, os que nos odeiam, amaldiçoam, difamam, roubam ou tomam o que é nosso é coisa totalmente inédita. No Antigo Testamento era permitido o olho por olho e o dente por dente (lei do talião). O Novo é mais exigente. A virtude da Justiça manda dar a cada um o que lhe é devido. Portanto o que Jesus pede é ir além da justiça. Amar e fazer o bem aos que os amam, os pagãos também o fazem. Mas a quem quiser escutá-lo, Ele pede mais e apresenta as razões: “Será grande a vossa recompensa”, “sereis filhos do Altíssimo” e “porque ele é bom para com os ingratos e maus”. Veja as palavras que o anjo Gabriel anuncia a Maria sobre Jesus: “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo…” (Lc 1,32). Ou seja, a recompensa é o próprio Jesus, ser como Ele.
Se ele nos pede é por que é possível e Ele mesmo dá o exemplo. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Os apóstolos não estariam errados se invocassem a justiça e o direito diante dos judeus que prenderam e flagelaram Jesus. Mas Ele não permite que Pedro use a espada para defendê-lo ou o pede o socorro das legiões de anjos para livrá-lo. Nem faz um milagre diante de Herodes ou faz ameaça Pilatos para escapar da morte. Ele sabe que cumpre a Vontade do Pai e que a justiça definitiva pertence a Deus. A Ele só cabia amar, orar e perdoar os que o condenavam, “pois não sabiam o que estavam fazendo…” (cf. Lc 23,34).
Que tal iniciar sua oração não pelos “inimigos” que talvez você não identifique, mas pelos que o ofenderam, ou o agrediram seja com palavras ou com atos. Ou pelos que não lhe deram a atenção, ou enfim pelos que lhe pediram alguma coisa e você não atendeu. Peça perdão por não ter sido capaz de praticar esta passagem naquela ocasião. Se conseguir identificar seus “inimigos”, também ore por eles. Suplique a graça de amar como Jesus amou, dando sua vida. Interceda por todos os que lhe prejudicaram intencionalmente ou não. Peça a misericórdia de Deus por você e por eles. Abra-se à ação do Espírito Santo que é capaz de mudar corações de pedra por corações de carne, sensíveis à Vontade de Deus. Relembre as vezes que você amou os difíceis, perdoou, não condenou e nem julgou os outros. Sinta a alegria de ter imitado Jesus, tornando-se filho de Deus. Louve e agradeça, pois foi graça e não mérito seu.
A contemplação dos mistérios de Deus é uma graça, um dom gratuito, que requer apenas uma atitude de recolhimento, abertura, aceitação, abandono e confiança. Então se recolha ao mais íntimo do seu coração. Abandone-se no Amor. Confie n’Aquele que só sabe amar e deseja habitar em nós transformando-nos na imagem do Seu Filho.
Termine este momento, anotando em seu caderno as graças recebidas para que nada se perca.
Jesus eu tenho confiança em vós!
Shalom!
Fonte: José Ricardo



