Defendendo os mais de 17500 Sacerdotes pecadores do Brasil
27.04.2010As pesquisas têm uma grande vantagem, se nem sempre verdadeiras e sempre bem lidas e interpretadas, nos fazem humildes. Convida-nos a não sentir-nos nem santos nem mitos e nem “rebotalhos da humanidade” e nem saco de lixo. Desde que Deus decidiu criar o ser humano, pecado e graça andaram juntos na história de todo ser humano. Luz e treva acompanharam a história e homens e mulheres erraram e depois voltaram a acertar a própria vida.
E outros erraram sem se converter, pelo menos aos nossos olhos, porque os olhos de Deus são tão diferentes dos nossos que a Igreja, com toda sua rigidez, nunca teve coragem de declarar solenemente que alguém está no inferno, só os diabos. Mas nenhuma criatura humana foi colocada pela autoridade magisterial da Igreja no inferno, todos têm direito, ao longo da vida ou nos últimos momentos da vida, de suspirar um “kirie eleison” e de Jesus dizer para ele o que disse do alto da cruz ao bom ladrão: “hoje estarás comigo no paraíso”.
Nestes dias em que todos os nossos bispos estão reunidos os jornais fizeram alarido, se sentiram felizes com o prato cheio da sensualidade dos padres. Publicaram, com uma certa revanche, que mais dos 41 por cento dos padres do Brasil, depois de assumido o sacerdócio teriam infringido o seu compromisso de “castidade”, teriam errado. Esta análise é fruto de uma pesquisa encomendada, parece, pela mesma Igreja.
Tudo que se faz no escuro vem, mais cedo ou mais tarde, à luz. A pesquisa é claro não foi perguntar a todos os mais de 17500 sacerdotes do Brasil – não sei se neste número estavam também incluídos os bispos – grande é a minha ignorância. Eu não fui perguntado, não respondi a nenhum questionário e, como eu imagino também tantos outros sacerdotes ficaram fora desta nobre pesquisa. Mas, seja qual for o resultado, por que gritar ao escândalo e achar que tudo está perdido?
Deus nestes últimos tempos, não sei porque, me tem dado a graça de orientar muitos retiros aos sacerdotes pelo Brasil afora. Tenho visto padres chorarem porque não conseguiam ser santos, outros porque não conseguiam largar da bebida, outros por não celebrar a Eucaristia como deveriam, outros por não se instalarem no meio do povo, outros por não serem castos, e outros duros como pedras para quem tanto fez e tanto faz. O coração humano é um mistério tão grande, nós somos “pecaminosidade” e gente boa, e santa e malandra. Sempre teve e terá em todas as camadas da sociedade humana – e a Igreja é humana e pecadora como todos nós.
A santidade é declarada só depois de mortos. A história nos ensina que não é o pecado que anula a santidade de Cristo, nem o pecado destrói a força do poder do sacerdote, e nem a grandeza do ideal de quem se coloca no seguimento de Jesus de Nazaré. Somos chamados a ser santos, devemos ser santos, mas se um dia nos descobrirmos pecadores não devemos desanimar mas recomeçar o caminho. Gosto muito da história, não sou historiador, e o que mais gosto na história da Igreja é que tem de tudo.
Não se pode negar que houve papas que não foram sinais de espiritualidade, de santidade de vida, aliás hoje os historiadores se divertem em fazer uma lista dos “piores papas da história”. Corruptos, simoníacos, desonestos, devassos ,mulherengos, e a Igreja continuou o seu caminho mais bela, mais santa e mais amada. A história está aí para dizer a cada um de nós: não diga “deste pão não comerei”… Quem está de pé, diz Paulo, veja de não cair”. Na história encontramos pessoas que lutaram como hoje para serem santos e fiéis.
Defendo os sacerdotes e a cada um digo, e a mim mesmo: seja qual for o nosso “pecado” não desanimemos, levantemo-nos e continuemos a caminhar, sabendo que a grandeza de Deus resplandece na nossa fragilidade. Aos leigos, aos escandalizados pela fragilidade do coração humano, pela fraca vontade dos sacerdotes, pelas falhas dos que deveriam ser santos, digo : “a graça não passa pela santidade dos padres”, mas pela grandeza do Cristo, sumo e eterno sacerdotes .
O sacerdote, o maior pecador e canalha, quando em seu ministério, age na pessoa de Jesus Cristo. É Cristo que nele age e sempre e agora, é por isso que o sacerdócio sempre será santo e santíssimo, como o é o de Cristo Jesus. Santa Teresa diz: “Deus doura os nossos pecados para que os outros, não vendo os nossos pecados, possam receber um pouco de bem que nós fazemos”.(Vida 4,10)
Li uma vez que as flores mais belas às vezes nascem nos lugares mais sujos e fedorentos. Acredito que seja assim, a flor do sacerdócio e da grandeza de Cristo nasce e floresce muitas vezes no coração sujo e fedorento dos padres, mas espalha o seu perfume. Nenhum sacramento, nem batismo, nem ordenação sacerdotal, nenhuma ordem, nem a episcopal, nem a profissão religiosa, confere a alguém a impecabilidade. Por que se maravilhar que somos pecadores? Não será o caso que, para que este seja vencido, devamos fazer um melhor discernimento vocacional? Isto que é importante. Não se aceita para ser atleta quem tem grave defeito de coração. Assim, não deveriam ser aceitos os que têm defeitos que desabona o sacerdócio.
Mas, se um atleta adoece? Depois, se um sacerdote peca, depois que é sacerdote é necessário amor, sustento, ajuda e não lançar as pedras. Defendo os mais de 17 500 sacerdotes e com eles a mim mesmo. Peço a Deus que nos preserve do pecado. Não importa que os nossos pés e coração sejam feridos e sangrando, o que importa é lutar e caminhar…
Vamos em frente de cabeça erguida e sem medo, tentando sermos santos e quando cairmos, peçamos o perdão ao Senhor e aos nossos irmãos, e continuemos o caminho. Santo só tem o Sumo e Eterno Sacerdote, Cristo. Todos os outros devem carregar algum pecado na consciência. Quem não tiver nenhum, que atire a primeira pedra.
Fonte: Frei Patricio
Fonte: Frei Patricio



